Três décadas a preservar a tradição académica
ARCUM: SETE GRUPOS, UMA SÓ ALMA
Numa época em que a cultura académica ainda dava os primeiros passos na Universidade do Minho, três grupos culturais pioneiros lançaram as bases do que viria a ser a Associação Recreativa e Cultural Universitária do Minho. Hoje, a ARCUM continua a ser um pilar da tradição e da inovação musical e artística na academia minhota.
Em 1984, surgiram o Grupo de Fados, o Grupo de Poesia e o Grupo de Música Popular (GMP), graças ao impulso de jovens estudantes inovadores e criativos. Estes são os três primeiros grupos que viriam a integrar a ARCUM.
O Grupo de Fados surgiu num contexto de afirmação das tradições académicas. Daniel Carvalho, atual diretor, explica que, na época, havia uma "necessidade de criar o espírito académico" e de trazer para a universidade a "tradição nacional". Apesar dos desafios relacionados com a aceitação da cultura coimbrã, o grupo procurou sempre "ser fiel àquilo que era o fado de Coimbra", mas com "algumas influências minhotas". Um marco importante foi a gravação do álbum Serenata, de Coimbra até ao Minho, em 1992, que uniu esses dois universos.
Mais recentemente, o grupo inovou com a inclusão de uma voz feminina, "uma quebra forte da norma", mas que, segundo Daniel, foi “um risco que valeu a pena". Para o diretor, a palavra que define a identidade do grupo é "tradição", porque a missão é manter viva a cultura académica e garantir que este legado seja passado para as novas gerações.
O Grupo de Poesia, à época, Grupo de Poesia, Guitarra e Flauta, centrava-se na preservação e divulgação da sonoridade típica da guitarra portuguesa na sua vertente coimbrã, bem como na disseminação de poemas e poetas portugueses emergentes e já reconhecidos. Em 2006, ganhou uma nova dinâmica, remodelando-se para incluir sonoridades mais abrangentes e até experimentais. Passou, então, a chamar-se Grupo de Poesia da Universidade do Minho.
Tiago Taxa, ou “GPS”, como é conhecido na ARCUM, faz parte deste grupo há 19 anos. “Fomos uma das primeiras peças do mosaico cultural académico minhoto e sempre lutamos para que este fosse o mais vibrante possível”. A organização das várias edições do encontro de poesia “Versos e Um Copo” e as atividades conjuntas com outros grupos da UM dão vida ao Grupo de Poesia, cuja essência, nas palavras de GPS, é a “união”.
O Grupo de Música Popular da Universidade do Minho nasceu da vontade de preservar e reinventar a música tradicional portuguesa no contexto académico. Desde então, tem-se dedicado à recolha e recriação de temas populares, trazendo-os para os palcos universitários com uma sonoridade autêntica e uma abordagem contemporânea.
A crescente presença nas redes sociais tem sido um dos principais fatores para a renovação contínua de membros, tornando o GMP mais atrativo e acessível às novas gerações. Henrique Pereira, membro do grupo, sublinha que tudo o que fazem “gira em torno da preservação e modernização do património”, destacando o ambiente criativo do grupo, onde a música e o espírito de união prevalecem.
Henrique acrescenta ainda que “o GMP é um grupo que mantém viva a identidade cultural portuguesa através da música popular, resgatando e reinventando temas tradicionais". Esta visão reflete a essência do grupo, onde a tradição se renova a cada geração, unindo o passado e o presente em forma de música.
A primeira tuna da Universidade do Minho surgiu em 1990. A TUM - Tuna Universitária do Minho - foi impulsionada sobretudo por um grupo de jovens emprestado dos três grupos culturais já existentes. Pedro Pinto, Sentinela na tuna, refere que a identidade e a tradição são características marcantes da TUM. “Os nossos elementos mantêm-se no ativo durante alguns anos. No fundo, acabam por estar cá tempo suficiente para passar a nossa identidade às gerações de tunos que vêm a seguir”, diz Sentinela.
A Tuna Universitária do Minho distingue-se pelo cuidado com que enverga o traje. Além disto, as alterações das meias vermelhas e do bico vermelho sob os ombros conferem-lhe uma grande individualidade no contexto de tunas universitárias. Para Sentinela, o que melhor descreve o grupo é a harmonia. “Primeiro, devido ao seu significado musical. Segundo, devido ao significado que carrega em termos de equilíbrio, de conjunto, de convivência, porque, no fundo, a tuna é uma verdadeira família onde aprendemos não só a fazer música em conjunto, mas também a tolerar e a ser bons amigos, amigos que duram para a vida toda.”
No calor das festas de S. João de Braga, em 1993, nasceu o Grupo Folclórico da Universidade do Minho. O GFUM surgiu da inquietação de membros de outros grupos culturais que sentiam a falta de uma abordagem etnográfica e folclórica no contexto universitário da época.
O grupo apresenta um repertório que inclui danças do Minho, como viras, chulas e malhões, tendo uma ronda de instrumentos tradicionais composta por cavaquinhos, braguesas e concertinas, sempre com o intuito de despertar nos jovens o respeito e a vontade de reavivar a memória cultural do povo minhoto. “O maior desafio tem sido manter a chama acesa e fazer com que os alunos continuem a querer aproximar-se das tradições, dos trajes, dos cantares, das danças e que vejam nisso uma herança cultural que é importante preservar e passá-la de geração em geração”, afirma André Marcos, membro do grupo há uma década.
Apesar da dificuldade em preservar o interesse pelo folclore no mundo moderno, o Grupo Folclórico da Universidade do Minho consegue reinventar-se sem abandonar o seu espírito, como destaca André Marcos. “A tradição por si só é inovação… tentamos não perder a essência, mas mostrar que podemos fazer coisas diferentes e coisas novas”.
Nove anos depois do Grupo Folclórico, nasceram os Bomboémia, o Grupo de Percussão da Universidade do Minho. Os “laranjinhas” são uma recriação do grupo de Gigantones, Cabeçudos e Zés Pereiras da UM, que tinham um conceito extremamente tradicional. Nesta reestruturação, em 2004, o grande foco foi a percussão, o bombo e a boémia da vida académica - daí, os “Bomboémia”.
Os “bombos”, à semelhança de outros grupos, estão presentes na vida académica da Universidade do Minho desde o início do ano letivo, no discurso do reitor para os novos alunos, até ao fim, aquando das Festividades do Enterro da Gata. Inês Cortez, que integra o grupo desde 2020, destaca a evolução musical que marcou os Bomboémia. “Em 2004 tínhamos duas músicas originais tradicionais dos Gigantones. Mas queríamos expandir-nos para outros ritmos, outras culturas. Começamos a tocar ritmos mais brasileiros, a usar instrumentos africanos”. Para Cortez, os Bomboémia são “energia”. No festival “Do Bira ao Samba”, que começou em 2015, fazem sentir toda esta energia vibrante e alegre, que tanto os caracteriza.
Foi já em novembro de 2012 que um grupo de estudantes e ex-estudantes deu vida à Tun’ao Minho, com a ambição de inovar o panorama das tunas femininas da universidade. “A oferta em Braga não era grande, só havia uma outra tuna feminina, e com o intuito de marcar pela diferença, foi fundada a Tun’ao Minho”, explica a tunante Diana Ferreira, mais conhecida por Saudade.
O nome surgiu de forma espontânea num guardanapo no bar Carpe Noctem e, desde a estreia no Enterro da Gata, têm consolidado a sua identidade, fortemente ligada às tradições minhotas. O traje composto por uma capotilha bordada com padrões inspirados nos lenços dos namorados de Vila Verde é um reflexo disso. A hierarquia interna segue a tradição folclórica, com as tunantes a evoluírem de Bordadeiras e Lavradeiras até Capotilhas, sendo as fundadoras as Mordomas.
Ao longo dos anos, a Tun’ao Minho levou a música académica bracarense além-fronteiras, sem nunca perder a conexão com a Universidade do Minho. “Onde quer que estejamos, fazemos questão de falar de Braga, da nossa academia e das nossas tradições”, afirma Saudade. Mais do que um grupo musical, a tuna tornou-se uma verdadeira família para as suas integrantes: “Quando a minha família não está, é a tuna que está”.
No ano da fundação da ARCUM, 1991, integraram a associação apenas os três grupos satélite da universidade - o Grupo de Fados, o Grupo de Poesia e o GMP - e a TUM. Posteriormente, o Grupo Folclórico, os Bomboémia e a Tun'ao Minho foram acolhidos pela associação que, hoje, exibe o trabalho deste sete grupos culturais. Os inúmeros prémios e distinções arrecadados ilustram o seu reconhecimento nacional e internacional. A ARCUM continua, há mais de trinta anos, a promover e valorizar a cultura académica minhota, sendo acarinhada pelos estudantes e pela cidade de Braga.

Imagem: Facebook Grupo de Fados da ARCUM

Imagem: Facebook Grupo de Poesia da UMinho

Imagem: Facebook Grupo de Música Popular da UMinho

Imagem: Facebook Tuna Universitária do Minho

Imagem: Facebook Grupo Folclórico da UMinho

Imagem: Facebook Bomboémia

