A primeira tuna da Universidade do Minho

Imagem: João Cunha
São nove da noite de uma quinta-feira. O sol já caiu. Ao entrar na sede da ARCUM, na Rua D.Pedro V, ouvem-se imediatamente as guitarras, as pandeiretas e os bandolins, proeminentes. Na sala destinada ao ensaio da TUM estão os caloiros que, com gargalhadas e brincadeiras pelo meio, terminam as preparações para o ensaio. Por volta das nove e meia chegam os mais velhos. Está na hora de começar.
Pijamas, caloiros e tunos. Esta é a hierarquia da tuna mais antiga da academia minhota. No final dos anos 80, quando a “moda” das tunas começou a espalhar-se pelo país, um grupo de estudantes entusiastas encarou a missão de fundar a primeira tuna da Universidade do Minho. À época, existiam poucos grupos culturais na universidade, nomeadamente o Grupo de Música Popular (GMP), que “emprestou” muitos membros à nova tuna. Fundada em 1990, a Tuna Universitária do Minho foi criada por um grupo de jovens unidos pelo gosto à música e ao convívio, que espalha alegria e irreverência por onde passa.
Na década de noventa, quando o traje académico do Minho estava a cair em desuso, a TUM foi dos seus principais difusores. Sentinela, nome de tuna para Pedro Pinto, destaca a importância deste grupo cultural na divulgação do traje do tricórnio, que a TUM enverga com algumas alterações, as meias vermelhas e o bico sob os ombros. “No início até havia pessoas que trajavam com as meias vermelhas, porque viam a tuna e achavam que o traje era assim”, conta o tuno. Num cenário de criação e consolidação das tradições minhotas, “a comunidade académica recebeu muito bem a tuna”.
Estas alterações valeram ao grupo a alcunha de “vermelhinhos”, conferindo-lhes uma identidade muito própria. O brilho nos olhos de Sentinela, atual magíster da TUM, deixa claro o orgulho que sente no ADN incomparável da tuna. “É sempre um motivo de orgulho ver que quando um estudante está a ouvir músicas de tunas é geralmente a Tunalmente Molhado ou outra música nossa. No fundo, a TUM foi um exemplo que a maioria das tunas acabou por seguir”.
Os “vermelhinhos” foram os primeiros a levar o nome da Universidade do Minho além-fronteiras, nas diversas digressões que realizam desde os seus primórdios. União Soviética, Brasil, Venezuela, Peru, Porto Rico, Balcãs e Luxemburgo são alguns dos territórios já deslumbrados pelas meias vermelhas. Aliás, foi a digressão à URSS, juntamente com o GMP, o Grupo de Fados e o Grupo de Poesia, que despoletou a criação da Associação Recreativa e Cultural Universitária do Minho, a ARCUM.
Daniel Carvalho, conhecido na tuna como Loreal, destaca o pioneirismo da TUM na propagação da essência minhota. “Sendo a primeira tuna, fomos os primeiros a representar lá fora a universidade. Recentemente fomos contactados por uma tuna internacional para vir ao nosso festival, ou seja, mesmo lá fora somos um ponto de referência”.
Apesar da integração na ARCUM, o grupo atravessa algumas dificuldades. Sentinela lamenta o problema de renovação do “capital humano” da tuna, a par com a mudança dos tempos e das mentalidades, que gera a necessidade de haver uma grande coesão entre os membros mais velhos e os mais novos. O magíster fala também da falta de recursos. “Há sempre recursos limitados para a quantidade de atividades que queremos fazer. Apesar de tentarmos colmatar isso de várias formas, é sempre uma luta”.
Já Loreal realça as condições do espaço de ensaios, a sede da ARCUM, que se encontra “aquém do que seria esperado”. A diminuição da audiência é, inclusive, uma preocupação do tuno. Com o surgimento de mais tunas no contexto académico da Universidade do Minho, Loreal nota que o público da TUM tem vindo a diminuir.
Ao refletir sobre os principais marcos que mudaram a trajetória da TUM, ambos os tunos realçam um dos instrumentais mais icónicos no contexto de tunas a nível nacional - a Partizan. Aquando do surgimento deste instrumental, a tuna atravessava um momento algo frágil. Deste modo, a Partizan rompeu com a tradição e renovou todo o espírito e sonoridade dos “vermelhinhos”. “Na altura foi um passo muito arriscado e houve alguma tensão dentro da tuna, porque é uma música muito disruptiva daquilo que era a nossa tradição. As tunas tradicionalmente são cordofones e nós introduzimos a bateria e os sopros, o que veio mudar o paradigma em todos os sentidos”, reflete Loreal. Apesar de já terem tentado introduzir novos instrumentais, Sentinela afirma que têm “muita dificuldade em substituir a Partizan, porque é uma música que realmente faz o público vibrar”.
Ainda assim, Loreal considera importante realçar a importância de três outras músicas. Em primeiro lugar, a Boémia, que é o hino da TUM e “representa um bocadinho mais o que é a tuna”; em segundo, a Tunalmente Molhado, “que é das serenatas mais conhecidas no país”; e por fim, a música com que se sobe de hierarquia na tuna, passando de caloiro a tuno, a Gerês Tónico.
Sentinela revela, com um sorriso contido, os projetos que já fervilham nos bastidores da tuna. “Estamos a trabalhar numa digressão a outro continente”, adianta, sem querer estragar a surpresa. O magíster partilha ainda que a TUM está a produzir um novo disco: “Temos vindo a preparar um novo CD. Trabalhar para o futuro é algo que nunca nos abandona”. Sem pressas e com os pés bem assentes no chão, o tuno sublinha que, apesar de haver muitos sonhos para um futuro mais distante, a prioridade é uma: “mantermos o foco em pouca coisa, fazendo pouco, mas bem.”.
A TUM vai-se moldando a cada geração que por lá passa. E se para muitos a escolha é feita com base na reputação e no espírito académico que a Tuna Universitária do Minho representa, para outros o percurso começa completamente às cegas.
Pedro Ribeiro, mais conhecido como Mamas, recorda com humor a sua entrada na tuna. "Entrei lá e não sabia absolutamente nada deles", confessa. "Só sabia que eram uma tuna... não conhecia nenhuma música, nem sabia que eram vermelhos, honestamente. Apenas sabia que queria entrar numa tuna, e entrei na sala certa quando entrei na sala da TUM."
O que começou como um salto no escuro rapidamente se transformou numa paixão. Para Mamas, a TUM não é apenas um grupo musical: é um pilar da cultura académica da Universidade do Minho. "Para além de passarmos a mensagem daquilo que é ser um membro da comunidade académica da UM, fazemo-lo com excelência e com o rigor máximo", sublinha. Uma excelência que acredita ser reconhecida tanto dentro como fora da academia.
Esta responsabilidade de representar algo maior do que eles próprios é um sentimento partilhado tanto pelos membros mais antigos como pelos mais novos. Bruno Rocha, que se descobriu na tuna como Andor, é um dos caloiros mais velhos. Já com alguma experiência, partilha a sua perceção quanto à evolução da tuna, de acordo com testemunhos que ouvira.
“A tuna mudou muito, tanto musicalmente como na forma como se comporta”, reflete o caloiro. O que era um grupo pequeno de amigos que se juntava para tocar de forma mais espontânea, hoje é uma estrutura sólida, com uma organização exigente e uma postura que acompanha a dimensão que a TUM foi alcançando ao longo dos anos. “Dantes os festivais eram uma cena muito curta: ias lá, tocavas um bocadinho, convivias um bocado. Agora é uma logística muito grande”, acrescenta.
O FITU Bracara AVGVSTA, Festival Internacional de Tunas Universitárias, é um dos reflexos desta transformação. Com 34 edições celebradas, o festival organizado pela TUM é hoje um dos eventos de referência no contexto nacional e internacional de tunas. Para Andor, fazer parte deste universo cultural é uma oportunidade única. “A universidade é muito mais do que aulas e estudos. Também é muito sobre a experiência, e a tuna é uma experiência inigualável.”, defende.
Desde 1990 que a TUM se faz de jovens que chegam sem saber ao certo o que procuram, mas acabam por encontrar muito mais que uma tuna. Encontram uma família, um legado e uma experiência que os marca para toda a vida. A cada ensaio, a cada digressão, a cada festival e a cada momento partilhado, a TUM mantém viva a chama da tradição, renovando-se sem nunca perder o que a torna única.
Com mais de 30 anos de existência, a TUM construiu não só um legado musical, como também uma comunidade de jovens unidos pelo amor à música, pelo espírito académico e pela cultura da Universidade do Minho.
À medida que o ensaio chega ao fim, o som dos instrumentos vai diminuindo, e as conversas, que antes se entrelaçaram com risos e brincadeiras, cedem lugar a um silêncio confortável. As últimas notas ecoam suavemente na sala, como se ainda estivessem a reverberar nas memórias de quem as tocou. Não há pressa de ir embora. Mesmo quando a vida puxa cada um para seu lado, eles retornam a casa. Porque na TUM, não há hora de despedida.










